Residência Hacker: Conheça o projeto Pontos Cegos de SP

No último mês, a mineira Sara Lana tem saído diversas noites pela cidade vestindo um capacete cheio de sensores. O projeto da engenheira elétrica com formação transdisciplinar em artes é detectar os pontos não filmados de São Paulo, lugares que escapam da vigilância das câmeras de segurança que hoje em dia dominam o espaço urbano. Pontos Cegos de SP vem sendo desenvolvido nos últimos dois meses durante a Residência Hacker do Red Bull Basement.

“No ano passado, fiz um estudo de caminhadas pela cidade por um viés sonoro com um parceiro meu chamado Marcelo XY. Procuramos vias de escape por esse viés. E então começamos a conversar muito sobre câmeras, algo que gera uma inquietação grande em mim, porque eu sempre adorei ver as imagens, mas ao mesmo tempo me sentia muito invadida ao me ver em gravações em portarias de prédio, por exemplo. Conversamos muito sobre isso e começamos a pensar na questão dos pontos cegos e das rotas de fuga, não só pelo viés acústico mas também visual”, conta Sara.

Foto: Felipe Gabriel / Red Bull Content Pool
Foto: Felipe Gabriel / Red Bull Content Pool

“Acho muito séria a questão da vigilância. As câmeras públicas têm uma questão delicada que envolvem muito a influência do Estado na vida do cidadão, a coisa da liberdade civil, mas as câmeras privadas talvez me assustem mais porque as públicas a gente consegue acessar os dados, já as privadas não, e isso é algo que está se multiplicando — você não sabe quem te vê, por quanto tempo as imagens são armazenadas. E sinto que é um consenso de solução de segurança pública o uso de câmeras, e que é uma solução mais reativa do que preventiva, que afasta a gente de uma discussão real sobre o assunto”, coloca ela. “Vindo pra cá, achei que seria legal criar uma ferramenta capaz de detectar onde estão as câmeras, fazer um mapeamento”.

O QUE É O PROJETO?
O sistema de detectar as câmeras de vigilância da cidade feito por Sara é constituído por um capacete com sensores e um mapa que reúne os dados captados por esse capacete.

“Não é trivial detector de câmera, tem várias pessoas tentando achar soluções pra isso e não conseguem. Então eu fui pra uma solução que é a detecção de infravermelhos: todas as câmeras fabricadas hoje têm um sistema de visão noturna, então quando anoitece elas ligam o infravermelho. Daí eu bolei um capacete com um microcontrolador, que manipula os dados, e com sensores que operam exatamente na banda de frequência eletromagnética dessas câmeras”, explica a engenheira.

Na prática, funciona assim: “Quando o capacete detecta uma câmera ele acende um LED, olha no GPS qual a coordenada do local e grava no cartão SD. Aí eu volto, descarrego o cartão e ele sobe automaticamente para um mapa que está sendo construído no meu site. E minha intenção a longo prazo é cobrir todo o hipercentro de São Paulo”, conta ela.

mapa-sara

Quem se interessar pela ideia pode colaborar: no site da residente, há todas as informações de como construir o capacete, e as pessoas podem compartilhar a localização dos pontos filmados da cidade via Telegram, ajudando Sara a construir esse mapa acima, que mostra os locais onde há câmeras e as vias “cegas” em meio a eles.

“O capacete é interessante porque ele chama a atenção, mas te dá essa consciência do momento exato em que você está sendo filmado. Eu tenho vontade de sair andando com esse capacete mundo afora agora”, diz ela.

Quem quiser saber mais sobre o projeto, a apresentação dele é nesta noite no auditório do Red Bull Station.

(Por Adriana Terra)