Entrevista com Karlla Girotto

Estilista de formação, artista e pesquisadora nas áreas de artes visuais, moda e performance, Karlla Girotto coordena o grupo de pesquisa e projetos em moda e design G>E (Grupo maior que Eu), sediado no Casa do Povo. Ela é nossa primeira convidada para trazer ao Red Bull Station seu grupo de estudos e replicar as suas dinâmicas de discussão e intercâmbio de forma aberta ao público.

Seus principais eixos de pesquisa são modos de existência como produção artística e as linhas fronteiriças entre performance, moda e vida nos processos de criação e produção de subjetividades.

Para conhecer mais a fundo os questionamentos e discussões abordadas no G>E, fizemos três perguntas à Karlla acerca do grupo e de suas pesquisas sobre as fronteiras da arte, moda e performance.


COMO VOCÊ COMEÇOU O GRUPO? QUAL O FOCO DELE?

Como fazer? De que jeito produzir? Como conduzir? Foram as perguntas iniciais que o G>E (lê-se Grupo maior que eu) suscitou em todos. O G>E é um grupo de estudos que começou no meu ateliê em setembro de 2013 quando fiz uma chamada pelo Facebook para um workshop de processo criativo (que iria durar 2 meses e agora já estamos em 18 meses). Como continuar potencialmente e criativamente vivo e atuante no mundo hoje – em sistemas que não permitem –  e como dosar essas relações de entrega de processos criativos são alguns dos questionamentos e inquietações que o G>E vem investigando.

Apareceram pessoas muito preciosas, especiais e os encontros passaram a ser uma coisa muito importante para cada um que chegava ali.

Esse processo de reflexão sobre o fazer de um artista (seja de qual natureza for) começou quando eu ainda trabalhava com moda. Eu nunca me encaixei no sistema nem na linguagem da moda e foi essa minha vivência que me levou a pensar: se lá não é possível, onde é possível então? (a criação, o fazer artístico). Passei a pensar que talvez viesse embutido num modo de vida, no dia-a-dia, não precisando necessariamente significar comércio, trajetória, carreira… De alguma forma, o G>E significou uma retomada de território nesse sentido, o de confabular outras possibilidades de produção e criação que não as dadas pelos meios de produção vinculados à demandas comerciais e, desse modo,  se fortalecendo como grupo e como processo.

Eu costumo dizer que o G>E não é sobre moda e processo criativo, é, principalmente, sobre como estar no mundo hoje, quase uma clínica – no sentido de estar sempre em busca de escavar as linhas de desejo e ação junto com cada um dos participantes. Quase todo mundo que apareceu no G>E é gente que vem de um processo de desgaste muito grande com a indústria e o sistema da moda. Na tentativa de entender o que fazer com a parte criativa, se deparam com a fragilidade que é perceber o próprio meio de criação e produção contaminados, mutilando saberes e fazeres. Entender essa fragilidade e acionar a potência que aí reside exige entrega é o que temos tentado fazer de forma intensiva e extensiva – estende-se a experiência no tempo e reforça-se o fazer por meio da ação, verbo agir, sem objetivo nem expectativas delirantes de entrega de produto/produção.

Através de leituras e materiais auxiliares, constrói-se territórios e subjetividades em uma dinâmica totalmente aberta e viva que une  materializações – textos produzidos, desenhos, pinturas, roupas, bordados, vídeos, fotografia, performances, festas, jantares e tudo junto e misturado.

ESTES ENCONTROS PROMOVERAM/PROMOVEM UMA TRANSFORMAÇÃO EM VOCÊ COMO PROFISSIONAL?

O G>E trabalha em três bases: a produção de pensamento (por meio de leituras de textos e o natural deslocamento que isso provoca na maneira em que enxergamos o mundo, a política, a economia, os modos de produção); a experiência estética/poética (desvinculando a produção estética de uma entrega imediatista, mercadológica e convocando as forças de produção da potência de vida, escavando as linhas de movimentação do desejo) e a organização de práticas e recursos (para que seja possível a manutenção da produção de pensamento em conjunto com a experiência estética/poética na vida cotidiana). Impensável seria que não tivesse deslocado meus territórios na mesma medida que o dos participantes. É no G>E que eu desenvolvo o fazer de todo dia. Hoje, além dos encontros, alguns integrantes do G>E dividem ateliê comigo na Casa do Povo e assim, alguma coisa vai sendo construída, transformada – é no dia a dia que tudo acontece. 

VOCÊ PODE DISCORRER UM POUCO SOBRE COMO A MODA, A PERFORMANCE E A ARTE SE COMUNICAM? 

É em outro território que se consegue vislumbrar certa comunicação entre moda, performance e arte – a criação e manutenção de subjetividades no dia a dia, como alguém produz a si e também ao mundo. 

É sutil e explicita fenômenos comunicacionais que se dão no cotidiano, construindo dramaturgias performáticas o tempo todo – na fila do banco, no metro, nas gôndolas do supermercado. Quem veste o que e quem coreógrafa quem? Tentativas de se moldar individualidades – de que jeito, gente!? Um grande sistema de trocas visíveis e invisíveis está em operação o tempo todo, de qual individualidade e identidade então estamos falando?

Não vejo como representação de um tipo de arte e performance vinculados ao sistema da arte e sim, algo que se dá e se dilui no cotidiano, no fazer das pessoas comuns e genéricas, nada singular, nada construído como “obra” – alias, esse conceito não caberia aqui, na maneira como eu vejo essa comunicação.
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O encontro acontece terça-feira (24/fev). A pedido da Karlla Girotto, recomendamos que os interessados leiam este texto antes do encontro.

Sujeito à lotação. Saiba mais

O programa Grupo de Estudos está previsto para acontecer uma vez por mês, às terças-feiras, no auditório do Red Bull Station.