Kiko Dinucci fala sobre a vivência no PULSO

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Ah, o tempo passou rápido. Há quase um mês, o projeto PULSO começou com a promessa de integrar mais de 30 músicos e produtores. Esta já é a última semana, mas muitas parcerias ainda estão rolando e tem um monte de músicas para serem gravadas do Red Bull Studios.Conversamos com um dos curadores do projeto, o músico Kiko Dinucci, para saber mais sobre como está sendo a sua experiência e de seu grupo até agora. Com a mais brasileira das formações, a turma inclui o bateirista Thomas Harres, a cantora Juçara Marçal, além de Zé Rolê, Caçapa e Felipe Cordeiro. A ideia do grupo é fazer criações inéditas, que misturem música regional e eletrônica. “Vai ser original”, ele garante.

Kiko, conta como está sendo o PULSO até agora.

Quando eu fui convidado pro projeto não tinha entendido 100% e não conseguia visualizar o que seria. Acredito que ninguém visualizou o que ia acontecer. Logo no primeiro dia, a gente teve um baque de ver a vontade que muita gente tinha em trabalhar uma com a outra. E já ficou essa promessa no ar, do tipo: “ah, você pode passar la na minha sala pra gravar uma guitarra?”. Durante a primeira semana, no caso do meu grupo, a gente fez quatro, cinco músicas. Foi assustador. Ter um espaço, uma sala, um laboratório, pra poder ficar experimentando – é um negocio meio cientifico mesmo – tendo ideias, gravando na hora. Começamos a gravar bastante. O Thomas, que é o músico que ficou mais tempo na sala, gravou muita coisa pra gente e pra outras pessoas também.

Acho que ele é o cara que gravou bateria pra todo mundo do PULSO…

É (risos). O cara que mais gravou entre todos os grupos, participou de quase todos. Eu particularmente nunca trabalhei num projeto assim, dessa dimensão, com esse compromentimento com a invenção e o experimento. A gente tem um compromisso de dar um resultado final, que é um EP, mas esta rolando muito mais que isso. Tem gente vai sair com um disco inteiro daqui.

Essa vivência faz diferença?

Por exemplo, no segundo ou no primeiro dia, apareceu o Don L, que eu só conhecia de longe. E ele perguntou se a gente poderia gravar alguma coisa no estúdio, porque ele tinha um horário e queria gravar algo com a gente. Fomos lá e levantamos uma base inteira pra ele, em duas partes, com estrofe e refrão. Um negócio nada típico pro universo dele, que é do hip-hop. Llevantamos umas coisas africanas, com influência de Mali e Etiópia. Tenho certeza que ele vai fazer uma música que não faria se estivesse sozinho.

O Ogi também comentou sobre esses encontros, acredito que estejam sendo a parte mais produtiva.

Isso só enriquece. Essa residência, ou ocupação, sei lá como chamar, poderia ser chamada de curso. Para um músico, ou uma pessoa que produz ou trabalha com universo musical, a troca ou o ato de trabalhar com outra pessoa de universo diferente é muito enriquecedor. É uma experiência que falta um pouco nas escolas de música. Na escola de música, você tem os alunos, que se conhecem, passam cinco anos juntos, cada um toca de um jeito, mas não é discutido muito a coisa de tocar em conjunto, de troca, com outra pessoa. Dois seres vivos, cada um tem um coração batendo num ritmo, tem uma sensibilidade, cada um propõe uma conversa e se estabelece o diálogo. Isso é o mais importante da música inteira. Não adianta um músico estudar num quarto oito horas por dia e não saber tocar com uma pessoa. Eu particularmente não me prendo a gênero nenhum e chamei pessoas que tivessem também esse tipo de liberdade.

Time de curadores do PULSO© Fabio Piva/Red Bull Content Pool

Me fala um pouco sobre o seu grupo, como você selecionou os participantes?

A primeira pessoa que chamei foi o Thomas Harres, ele trabalha com o Jards Macalé, Negro Leo, vem de uma cena do Rio de Janeiro muito inventiva, experimental, ousada. Uma cena de ruptura mesmo com os padrões da música carioca. Ele vem de um grupo de trabalha com ideias mais radicais. Depois chamei o Felipe Cordeiro, que traz a bagagem da música paraense e só com isso já traz muitas bagagens. Porque a música paraense pode ser o brega, o carimbó, o technobrega, seresta, choro, cumbia, merengue. A música que é feita no Pará tem influencia de várias coisas do mundo, e principalmente da atmosfera caribenha. O Felipe conversa muito bem com todas. O pai dele produzia lambada nos anos 80. Chamei também a Juçara Marçal, que trabalha comigo no Metá Metá, e ela é uma cantora que não se prende em gêneros, tem uma bagagem muito brasileira, com uma vivência muito grande. Conviveu com mestres do interior do Brasil e aprendeu a cantar com eles. Eu tive essa preocupação de chamar pessoas que tenham ligação forte com música brasileira. Chamei o Rodrigo Caçapa, que é de Recife, que desenvolveu uma coisa que me inspirou muito particularmente, que é tocar viola, ou guitarra, de um jeito mais polifônico, sem fazer acordes. Ele trabalha com várias vozes de guitarra sobrepostas, melodias sobrepostas, que formam uma teia. Isso deu um norte para eu fazer as coisas do Metá. Faltou falar do Psilosamples, que é de Pouso Alegre, de Minas, que faz uma música eletrônica muito brasileira, com elementos rurais. Ele é apelidado como Zé da Roça, tem uma vivência com a música caipira, uma coisa muito original. Ele tá fazendo uma coisa no grupo que é desconstruir o que a gente faz. A gente grava vários canais e deixa ele fazer o remix. Todas as músicas estão muito íntimas a linguagem eletrônica, mas uma música eletrônica que não exista e que dialogue com coisas primitivas e acústicas. A ideia do grupo é essa.

Então é algo que não estamos acostumados a ouvir.

Isso eu garanto. Vai ser original!Por Camila Alam