Giselle Beiguelman fala sobre arte, cidade e tecnologia

A artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Giselle Beiguelman vem ao Red Bull Station nesta quarta-feira (18) falar sobre urbanismo open source, uma proposta de transformação urbana mais colaborativa e aberta, com o uso das redes.

A artista  digital e professora da FAU-USP Giselle Beiguelman
A artista digital e professora da FAU-USP Giselle Beiguelman

A palestra integra a programação paralela da Residência do Red Bull Basement, programa de produção, pesquisa e difusão de projetos que exploram formas colaborativas de experimentação com mídias digitais e tem curadoria de Gisela Domschke. 

Aproveitando a sua visita, fizemos quatro perguntas sobre temas que permeiam arte contemporânea, espaço urbano e tecnologia.

São Paulo parece viver um momento de querer se reapropriar de sua cidade. O que mudou dos últimos tempos para cá?
Fizemos o download da internet, como disse o André Lemos. E isso nos permitiu tomar conta da arquiterface, eu diria. A rede somos nós. O desafio agora é aprender o “Do it Yourself  With the Others”, bem mais difícil que o individualista “DIY” (Do it Yourself, Faça você mesmo). 

Na sua visão, como as tecnologias digitais podem reinventar a forma de se viver na cidade hoje?
As cidades contemporâneas foram expandidas pelas tecnologias digitais. Elas permitiram a ocupação de fachadas com telas e acesso, via aplicativos, a informações que vão do fluxo do trânsito ao mapeamento de remoções decorrentes de obras públicas. Se, ao longo dos anos 1990, os especialistas discutiam como apropriar-se das redes para tornar a cidade mais interativa, hoje, com a capilarização da tecnologia, a aposta é em como utilizá-las para interferir no cotidiano das cidades.

A discussão sobre “cidades inteligentes” cede, assim, espaço para a de cidadania, reinventando as formas de ocupar as ruas e as próprias noções de política urbana. Não se trata mais de apenas planejar e regrar o espaço coletivo, mas, sim, de como mobilizar para que essas regras sejam fluidas o suficiente para constituir e reconstituir o uso comum, conforme as necessidades do momento.

Como você vê a cultura hacker?
Na perspectiva de André Gorz que em O Imaterial definiu os hackers como os “dissidentes do capitalismo digitalismo”, aqueles que são capazes de operar na sua infraestrutura e redirecionar os seus vetores e processos.

Você participa da mostra Arquinterface, que tem obras digitais projetadas a céu aberto, no prédio da Fiesp. Na sua opinião, a arte em locais públicos como esse pode servir como um gatilho para uma nova percepção do espaço urbano?
Com certeza. O espaço urbano  é um espaço de interconexão das redes on e off-line e de suas dimensões políticas, estéticas e socioculturais. Isso nos faz entender as cidades como expandidas e espaços emergentes e de emergência. Nesse contexto, a arquinterface torna-se um lugar não de interação com telas, mas com os dados no espaço público, um lugar de participação mediada e de configuração de um novo território de partilha simbólica e de percepção dos fluxos contemporâneos.

Saiba mais sobre a palestra que acontece hoje, às 20h, no Red Bull Station. Entrada livre

Daniel Acosta fala sobre sua trajetória artística

Ao longo de mais de 20 anos de produção, o artista gaúcho Daniel Acosta tem explorado diferentes linguagens como escultura, desenho, fotografia, instalações e arquiteturas portáteis. Mais recentemente, seu trabalho direcionou-se para um contexto híbrido entre arte, arquitetura e design, construindo pequenas arquiteturas e mobiliários para o espaço urbano e instituições públicas.

Em uma conversa com o curador e diretor artístico do Red Bull Station, Fernando Velázquez, Acosta fala de sua trajetória artística e discorre sobre a figura do artista e sua visão da arte contemporânea.

FERNANDO VELÁZQUEZ: Eu acompanho o seu trabalho há  anos, desde a época do Ateliê Aberto em Campinas, com o Reginaldo Pereira [final dos anos 90], e mudou bastante de lá para cá, né? Os objetos não apontavam para o coletivo de uma forma que apontam agora. Me lembro daquele objeto que era uma guarita e parecia parte de um mundo fictício, de um mundo narrativo, asséptico, e seu trabalho foi para um lado mais do “relacional”.

DANIEL ACOSTA: Sim, as Paisagens Portáteis. Quando vim morar em São Paulo pela segunda vez, para fazer doutorado [2001 a 2004], fiz esta série que chamo de Paisagens Portáteis. Era um pouco essa ideia de pensar como nos relacionamos com situações de uma natureza artificial, uma natureza industrial, estandardizada. Gosto muito de usar Formica com padrão madeira – que substitui a relação que você tem com a própria madeira – só que ela é limpa e asséptica. Eu trabalhava com essa Formica, com plantas artificiais, luz fluorescente. Essa série era algo meio sarcástico, irônico, pensando que em São Paulo toda vez que você quer ir à natureza demora, é aquele drama para sair daqui.

Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)
Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)

VELÁZQUEZ: As relações são mais fechadas também, você pensava nisso?

ACOSTA: Sim, a própria arquitetura da cidade – o vidro espelhado que reflete, os locais que não há acesso, os edifícios, esta coisa mais rígida e fechada. Tinha a ver com tudo isso. E a ideia era que ao invés de você ir em direção a paisagem, a paisagem iria até você. Haviam também uns lagos azuis que faziam referência aos lagos de shopping center e às fontes de edifícios. Meu trabalho tem esta característica de se apropriar de vocabulários visuais já existentes e transformá-los em outra coisa. O que mudou radicalmente é que eu tinha, até então, uma visão crítica sobre o espaço urbano e ficava criticando esta situação com esses trabalhos, colocando o dedo na ferida com um sorriso meio sarcástico.

VELÁZQUEZ: E havia talvez uma certa utopia…

ACOSTA: É, uma certa utopia, algo assim. Então pensei, “quem sabe não tento resolver os problemas que estou acusando e não apenas ficar apontando para esses, com uma postura mais cômoda”. Também tem a ver com uma certa acomodação com o contexto da arte – exposição em galeria, que pouca gente tem acesso. Comecei a ir em direção a este trabalho que lida com coisas essencialmente públicas e fui conhecer o trabalho de um monte de gente incrível, como os holandeses do Atelie Van Lieshout. E Fui atrás de uma série de informações que tinham a ver com essa situação e mudou minha cabeça.

Comecei pensar na ideia de espaços de inclusão e exclusão – a cidade tem espaços de inclusão e exclusão, citando o arquiteto Richard Rogers. Passei a pensar meus trabalhos como uma forma de gerar espaços de inclusão, onde as pessoas se encontrassem, sentassem, conversassem.

VELÁZQUEZ: É uma discussão política que você introduz, você ocupa o espaço urbano com seu trabalho e não liga mais se ele for deteriorado. Não é aquela fetichização do objeto, apenas.

ACOSTA: Exatamente. São feitos de madeira normalmente que tem um tempo de duração. Não vão durar pra sempre, mas existe a possibilidade de refazer, o que afasta da ideia de obra de arte que não se pode tocar.

Cassinocosmocave”, 2009, compensado, parafusos, verniz, 180x210x210 cm
Cassinocosmocave, 2009. Compensado, parafusos, verniz, 180x210x210 cm

O mais importante para mim são as pessoas, é como se o material de trabalho fossem as pessoas. As obras são como um dispositivo que gera uma situação e que vai gerar uma certa ação em relação ao lugar.  E faço trabalhos seguindo a demanda do local, como os três mobiliários que criei para o Sesc Bom Retiro. Essa ideia de demanda me agrada, o design e a arquitetura trabalham a partir de demandas.

VELÁZQUEZ:  E você fez um loop, se a gente pensar na sua última exposição da [galeria] Casa Triângulo.

ACOSTA: Exato. As pessoas se acostumaram então com a ideia que meu trabalho é para usar, para sentar. Lá, eu reduzi a escala para inverter esta situação. Não é para sentar, mas as pessoas continuam achando que é. Resolvi confundir, embaralhar a situação.

VELÁZQUEZ: Interessante ver que antes de mais nada o artista é um persistente. A grande maioria do tempo ele faz algo que ninguém vê ou entende.

ACOSTA: Meu trabalho tem a ver com isso, uma resistência a certas coisas. Como sou também professor de faculdade não tenho que viver de arte. Acho que nem conseguiria viver com a ansiedade de ficar vendendo para ganhar dinheiro. A universidade me garante certo lugar e me vejo mais como um pensador, não como um artista/artesão. A questão política é muito importante para mim. E a arte tem a ver com isso, a arte sempre teve a ver com isso. Vejo o artista como um cara que se assume como artista, como se fosse um lugar na sociedade, uma plataforma por onde você emite os seus lances, como diria [Marcel] Duchamp. Seja fazendo vídeo, foto, música, instalação, dança. Qualquer coisa é possível no contexto artístico atualmente. Eu não vendo tanto e isso gera uma coerência no meu trabalho. Tem artista que vende muito, e também se repete. Minha estratégia é diferente, não faço muito mas cada vez que eu faço ponho tudo no trabalho.

Rodrigo Sassi exibe obra com referências arquitetônicas e urbanas

De 15 de agosto a 17 de outubro o artista paulistano Rodrigo Sassi ocupa a galeria principal do Red Bull Station com uma escultura de grandes proporções criada com materiais descartados de construção civil. A instalação, intitulada Tudo aquilo que eu lhe disse antes mas nem eu sabia, traz referências arquitetônicas e do cenário urbano que caracterizam a produção do artista.

Neste site-specific, obra pensada e desenvolvida para o local, Sassi cria sua própria arquitetura e atribui um novo significado aos materiais de descarte. “Eu me aproprio de elementos usados para construir a cidade e construo algo novo, dando algo como uma sobrevida a esse material que já vem cheio de significados e marcas”, explica.

Foto: Hick Duarte / Red Bull Content Pool
Foto: Hick Duarte / Red Bull Content Pool

Esta relação entre arte e cidade está presente desde o início de sua trajetória artística, marcada pelo desenvolvimento e prática de intervenções urbanas. Com o passar dos anos, Rodrigo Sassi trouxe para dentro do ateliê essa pesquisa, que se transformou em referência estética e conceitual. “Nasci aqui e São Paulo está em mim. O interessante da intervenção é que ela atinge as pessoas direto, sem intermédio de um crítico ou de um texto”, conta. “O público olha a obra com uma visão própria e pode refletir e atuar como quiser porque o trabalho não é mais teu, ele é da cidade.”

Além de madeira reutilizada, a escultura de 12 metros de comprimento por dois metros e meio de altura é composta por carretéis de cabo de energia, concreto, cabos de aço, metal e luzes num processo que durou quase três meses. “São materiais que foram coletados no meu entorno e que falam sobre a cidade, sobre algo que está em volta de todos”, diz.

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O artista Rodrigo Sassi. Foto: Hick Duarte / Red Bull Content Pool

O trabalho conta ainda com um sistema de iluminação, algo até então inédito em sua obra, que mostra as sombras emitidas como elementos complementares na composição, remetendo a uma edificação que é estruturada para posteriormente serem aplicados os sistemas prediais (elétrico, hidráulico e luminotécnico).

Quanto a técnica, ele conta que a instalação foi construída a partir da releitura do processo de criação fôrmas de concreto armado, transformando as chapas de madeira descartada. A finalização com o concreto dá o acabamento e legitima a funcionalidade do trabalho de marcenaria, que é abrigar, moldar e dar movimento à escultura.

A exposição tem entrada gratuita e está aberta a visitação de terça a sexta das 11h às 20h e aos sábados das 11h às 19h.

Kiko Dinucci fala sobre a vivência no PULSO

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Ah, o tempo passou rápido. Há quase um mês, o projeto PULSO começou com a promessa de integrar mais de 30 músicos e produtores. Esta já é a última semana, mas muitas parcerias ainda estão rolando e tem um monte de músicas para serem gravadas do Red Bull Studios.Conversamos com um dos curadores do projeto, o músico Kiko Dinucci, para saber mais sobre como está sendo a sua experiência e de seu grupo até agora. Com a mais brasileira das formações, a turma inclui o bateirista Thomas Harres, a cantora Juçara Marçal, além de Zé Rolê, Caçapa e Felipe Cordeiro. A ideia do grupo é fazer criações inéditas, que misturem música regional e eletrônica. “Vai ser original”, ele garante.

Kiko, conta como está sendo o PULSO até agora.

Quando eu fui convidado pro projeto não tinha entendido 100% e não conseguia visualizar o que seria. Acredito que ninguém visualizou o que ia acontecer. Logo no primeiro dia, a gente teve um baque de ver a vontade que muita gente tinha em trabalhar uma com a outra. E já ficou essa promessa no ar, do tipo: “ah, você pode passar la na minha sala pra gravar uma guitarra?”. Durante a primeira semana, no caso do meu grupo, a gente fez quatro, cinco músicas. Foi assustador. Ter um espaço, uma sala, um laboratório, pra poder ficar experimentando – é um negocio meio cientifico mesmo – tendo ideias, gravando na hora. Começamos a gravar bastante. O Thomas, que é o músico que ficou mais tempo na sala, gravou muita coisa pra gente e pra outras pessoas também.

Acho que ele é o cara que gravou bateria pra todo mundo do PULSO…

É (risos). O cara que mais gravou entre todos os grupos, participou de quase todos. Eu particularmente nunca trabalhei num projeto assim, dessa dimensão, com esse compromentimento com a invenção e o experimento. A gente tem um compromisso de dar um resultado final, que é um EP, mas esta rolando muito mais que isso. Tem gente vai sair com um disco inteiro daqui.

Essa vivência faz diferença?

Por exemplo, no segundo ou no primeiro dia, apareceu o Don L, que eu só conhecia de longe. E ele perguntou se a gente poderia gravar alguma coisa no estúdio, porque ele tinha um horário e queria gravar algo com a gente. Fomos lá e levantamos uma base inteira pra ele, em duas partes, com estrofe e refrão. Um negócio nada típico pro universo dele, que é do hip-hop. Llevantamos umas coisas africanas, com influência de Mali e Etiópia. Tenho certeza que ele vai fazer uma música que não faria se estivesse sozinho.

O Ogi também comentou sobre esses encontros, acredito que estejam sendo a parte mais produtiva.

Isso só enriquece. Essa residência, ou ocupação, sei lá como chamar, poderia ser chamada de curso. Para um músico, ou uma pessoa que produz ou trabalha com universo musical, a troca ou o ato de trabalhar com outra pessoa de universo diferente é muito enriquecedor. É uma experiência que falta um pouco nas escolas de música. Na escola de música, você tem os alunos, que se conhecem, passam cinco anos juntos, cada um toca de um jeito, mas não é discutido muito a coisa de tocar em conjunto, de troca, com outra pessoa. Dois seres vivos, cada um tem um coração batendo num ritmo, tem uma sensibilidade, cada um propõe uma conversa e se estabelece o diálogo. Isso é o mais importante da música inteira. Não adianta um músico estudar num quarto oito horas por dia e não saber tocar com uma pessoa. Eu particularmente não me prendo a gênero nenhum e chamei pessoas que tivessem também esse tipo de liberdade.

Time de curadores do PULSO© Fabio Piva/Red Bull Content Pool

Me fala um pouco sobre o seu grupo, como você selecionou os participantes?

A primeira pessoa que chamei foi o Thomas Harres, ele trabalha com o Jards Macalé, Negro Leo, vem de uma cena do Rio de Janeiro muito inventiva, experimental, ousada. Uma cena de ruptura mesmo com os padrões da música carioca. Ele vem de um grupo de trabalha com ideias mais radicais. Depois chamei o Felipe Cordeiro, que traz a bagagem da música paraense e só com isso já traz muitas bagagens. Porque a música paraense pode ser o brega, o carimbó, o technobrega, seresta, choro, cumbia, merengue. A música que é feita no Pará tem influencia de várias coisas do mundo, e principalmente da atmosfera caribenha. O Felipe conversa muito bem com todas. O pai dele produzia lambada nos anos 80. Chamei também a Juçara Marçal, que trabalha comigo no Metá Metá, e ela é uma cantora que não se prende em gêneros, tem uma bagagem muito brasileira, com uma vivência muito grande. Conviveu com mestres do interior do Brasil e aprendeu a cantar com eles. Eu tive essa preocupação de chamar pessoas que tenham ligação forte com música brasileira. Chamei o Rodrigo Caçapa, que é de Recife, que desenvolveu uma coisa que me inspirou muito particularmente, que é tocar viola, ou guitarra, de um jeito mais polifônico, sem fazer acordes. Ele trabalha com várias vozes de guitarra sobrepostas, melodias sobrepostas, que formam uma teia. Isso deu um norte para eu fazer as coisas do Metá. Faltou falar do Psilosamples, que é de Pouso Alegre, de Minas, que faz uma música eletrônica muito brasileira, com elementos rurais. Ele é apelidado como Zé da Roça, tem uma vivência com a música caipira, uma coisa muito original. Ele tá fazendo uma coisa no grupo que é desconstruir o que a gente faz. A gente grava vários canais e deixa ele fazer o remix. Todas as músicas estão muito íntimas a linguagem eletrônica, mas uma música eletrônica que não exista e que dialogue com coisas primitivas e acústicas. A ideia do grupo é essa.

Então é algo que não estamos acostumados a ouvir.

Isso eu garanto. Vai ser original!Por Camila Alam

Berndnaut Smilde – o artista que faz nuvens

Berndnaut Smilde é um artista holandês que trabalha com instalação, escultura e fotografia. Há cinco anos, uniu arte e ciência e tornou-se conhecido mundialmente ao recriar nuvens artificiais em espaços fechados, com o uso de vapor d’água, fumaça e luz. As esculturas flutuantes existem por apenas alguns segundos, mas a obra permanece por meio de uma série de fotografias. Além das “Nimbus”, Smilde explora em seus trabalhos outros fenômenos naturais como o arco-íris.

A convite do Mesa&Cadeira o artista esteve no Red Bull Station durante seis dias, onde liderou uma mesa e dividiu sua habilidade de hackear a natureza com um time de 12 profissionais de áreas como física, arquitetura, comunicação, nanotecnologia, urbanismo e design. Juntos eles produziram um arco-íris no centro da cidade de São Paulo:

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Arco-íris artificial projetado por um prisma sobre edifícios no centro de São Paulo.

Em entrevista exclusiva, Smilde fala sobre sua produção:

Como surgiu este seu interesse por fenômenos naturais? 

As pessoas criaram histórias e mitos sobre os fenômenos climáticos por séculos porque não conseguiam compreendê-los. Provavelmente, é a única coisa que nós ainda não temos controle. Tem algo de inatingível na natureza que me intriga. Estou trabalhando com a ideia da nuvem e do arco-íris e o que as pessoas projetam neles. Nuvens podem ser relacionadas ao divino e à sorte mas também à confusão e ao azar. Um arco-íris pode ser visto como símbolo de perfeição e promessa, mas e se ele beira apenas o seu prédio ou se está de cabeça para baixo? O que isso significa? Muitos dos meus trabalho exploram esta ideia de dualidade.

As nuvens são um tema frequentes na sua obra. Você pode nos explicar o porquê? 

Meu trabalho com nuvens começou como uma reação ao espaço expositivo. Estava curioso para saber como seria encontrar uma nuvem dentro de um ambiente fechado. Me imaginei andando em museu vazio onde não havia nada para ver, exceto uma nuvem pairando no canto da sala. Inicialmente eu pretendia criar a imagem da “grande decepção” como um contraponto ao que se espera encontrar dentro de um museu. Como se de repente pudesse chover em você. Mas então me interessei pelo aspecto fugaz da nuvem e suas referências históricas e culturais. As ideias românticas, o sublime; a nuvem representa tanto o ideal quanto o perecível.

Qual foi sua intenção em trazê-las para espaços fechados?

Para mim o trabalho é sobre a ideia de haver uma nuvem dentro de um espaço. Pode ser interpretado como um sinal de perda ou de devir, ou apenas como fragmento de uma pintura clássica. É também a imagem do aparentemente impossível. Colocar um fenômeno natural em um contexto artificial pode ser ameaçador, como uma mensagem desconhecida.

Nimbus Sankt Peter, 2014
Nimbus Sankt Peter, 2014

Existe uma questão de temporalidade nesses trabalhos. Você pode falar um pouco sobre isso?

Sim, eu as vejo como esculturas temporárias, feitas de quase nada, equilibrando-se na beira da materialidade, uma imagem da perspectiva em um espaço vazio. As nuvens existem por apenas alguns segundos até se desmancharem. Eu gosto da impermanência do trabalho.

O que você quer provocar no espectador ?

Grande parte da minha produção explora uma ideia de dualidade. Assim como as nuvens se formam e se desfazem ao mesmo tempo, as instalações e esculturas que crio questionam a construção e desconstrução, o tamanho, a temporalidade, a  função dos materiais e os elementos arquitetônicos. Muitas das minhas obras parecem estar funcionando, mas frequentemente estão destinadas a falhar, seja pela técnica, pela física, ou com base em nossa perspectiva como espectador. A proposta é lidar com questões como a perfeição e o ideal.

E como é possível recriar nuvens?

Eu uso todos os meios necessários para criar uma ideia. As nuvens são feitas a partir de uma combinação de vapor de água, fumaça e luz.

Entrevista com Karlla Girotto

Estilista de formação, artista e pesquisadora nas áreas de artes visuais, moda e performance, Karlla Girotto coordena o grupo de pesquisa e projetos em moda e design G>E (Grupo maior que Eu), sediado no Casa do Povo. Ela é nossa primeira convidada para trazer ao Red Bull Station seu grupo de estudos e replicar as suas dinâmicas de discussão e intercâmbio de forma aberta ao público.

Seus principais eixos de pesquisa são modos de existência como produção artística e as linhas fronteiriças entre performance, moda e vida nos processos de criação e produção de subjetividades.

Para conhecer mais a fundo os questionamentos e discussões abordadas no G>E, fizemos três perguntas à Karlla acerca do grupo e de suas pesquisas sobre as fronteiras da arte, moda e performance.


COMO VOCÊ COMEÇOU O GRUPO? QUAL O FOCO DELE?

Como fazer? De que jeito produzir? Como conduzir? Foram as perguntas iniciais que o G>E (lê-se Grupo maior que eu) suscitou em todos. O G>E é um grupo de estudos que começou no meu ateliê em setembro de 2013 quando fiz uma chamada pelo Facebook para um workshop de processo criativo (que iria durar 2 meses e agora já estamos em 18 meses). Como continuar potencialmente e criativamente vivo e atuante no mundo hoje – em sistemas que não permitem –  e como dosar essas relações de entrega de processos criativos são alguns dos questionamentos e inquietações que o G>E vem investigando.

Apareceram pessoas muito preciosas, especiais e os encontros passaram a ser uma coisa muito importante para cada um que chegava ali.

Esse processo de reflexão sobre o fazer de um artista (seja de qual natureza for) começou quando eu ainda trabalhava com moda. Eu nunca me encaixei no sistema nem na linguagem da moda e foi essa minha vivência que me levou a pensar: se lá não é possível, onde é possível então? (a criação, o fazer artístico). Passei a pensar que talvez viesse embutido num modo de vida, no dia-a-dia, não precisando necessariamente significar comércio, trajetória, carreira… De alguma forma, o G>E significou uma retomada de território nesse sentido, o de confabular outras possibilidades de produção e criação que não as dadas pelos meios de produção vinculados à demandas comerciais e, desse modo,  se fortalecendo como grupo e como processo.

Eu costumo dizer que o G>E não é sobre moda e processo criativo, é, principalmente, sobre como estar no mundo hoje, quase uma clínica – no sentido de estar sempre em busca de escavar as linhas de desejo e ação junto com cada um dos participantes. Quase todo mundo que apareceu no G>E é gente que vem de um processo de desgaste muito grande com a indústria e o sistema da moda. Na tentativa de entender o que fazer com a parte criativa, se deparam com a fragilidade que é perceber o próprio meio de criação e produção contaminados, mutilando saberes e fazeres. Entender essa fragilidade e acionar a potência que aí reside exige entrega é o que temos tentado fazer de forma intensiva e extensiva – estende-se a experiência no tempo e reforça-se o fazer por meio da ação, verbo agir, sem objetivo nem expectativas delirantes de entrega de produto/produção.

Através de leituras e materiais auxiliares, constrói-se territórios e subjetividades em uma dinâmica totalmente aberta e viva que une  materializações – textos produzidos, desenhos, pinturas, roupas, bordados, vídeos, fotografia, performances, festas, jantares e tudo junto e misturado.

ESTES ENCONTROS PROMOVERAM/PROMOVEM UMA TRANSFORMAÇÃO EM VOCÊ COMO PROFISSIONAL?

O G>E trabalha em três bases: a produção de pensamento (por meio de leituras de textos e o natural deslocamento que isso provoca na maneira em que enxergamos o mundo, a política, a economia, os modos de produção); a experiência estética/poética (desvinculando a produção estética de uma entrega imediatista, mercadológica e convocando as forças de produção da potência de vida, escavando as linhas de movimentação do desejo) e a organização de práticas e recursos (para que seja possível a manutenção da produção de pensamento em conjunto com a experiência estética/poética na vida cotidiana). Impensável seria que não tivesse deslocado meus territórios na mesma medida que o dos participantes. É no G>E que eu desenvolvo o fazer de todo dia. Hoje, além dos encontros, alguns integrantes do G>E dividem ateliê comigo na Casa do Povo e assim, alguma coisa vai sendo construída, transformada – é no dia a dia que tudo acontece. 

VOCÊ PODE DISCORRER UM POUCO SOBRE COMO A MODA, A PERFORMANCE E A ARTE SE COMUNICAM? 

É em outro território que se consegue vislumbrar certa comunicação entre moda, performance e arte – a criação e manutenção de subjetividades no dia a dia, como alguém produz a si e também ao mundo. 

É sutil e explicita fenômenos comunicacionais que se dão no cotidiano, construindo dramaturgias performáticas o tempo todo – na fila do banco, no metro, nas gôndolas do supermercado. Quem veste o que e quem coreógrafa quem? Tentativas de se moldar individualidades – de que jeito, gente!? Um grande sistema de trocas visíveis e invisíveis está em operação o tempo todo, de qual individualidade e identidade então estamos falando?

Não vejo como representação de um tipo de arte e performance vinculados ao sistema da arte e sim, algo que se dá e se dilui no cotidiano, no fazer das pessoas comuns e genéricas, nada singular, nada construído como “obra” – alias, esse conceito não caberia aqui, na maneira como eu vejo essa comunicação.
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O encontro acontece terça-feira (24/fev). A pedido da Karlla Girotto, recomendamos que os interessados leiam este texto antes do encontro.

Sujeito à lotação. Saiba mais

O programa Grupo de Estudos está previsto para acontecer uma vez por mês, às terças-feiras, no auditório do Red Bull Station.

Entrevista com Edith Derdyk

A artista plástica, educadora e ilustradora Edith Derdyk ministrará workshop no Red Bull Station no qual se propõe a observação de um olhar que opera entre os campos da palavra e da imagem. Tema relacionado ao trabalho e pesquisa da artista. Conversamos com ela sobre seu processo criativo, sua forma de ver e viver a arte e a proposta do curso que acontece dias 4 e 5 de Novembro:

Você explora várias linguagens – desenho, gravura, livro de artista, instalações, vídeo, fotografia – como aconteceu esse percurso?

O desenho sempre foi a matriz de meu percurso poético, espécie de plataforma para a captura do pensamento e projeções para ações no mundo. O desenho, pela sua natureza específica, é a linguagem que transita em todas as áreas do conhecimento – arte, ciência, técnica. A transitividade dessa me conduziu para a pesquisa e experimentação das interfaces, dos limites e contágios, da fricção entre as distintas materialidades, procedimentos e linguagens.

O diálogo entre a palavra e a imagem aparece frequentemente. Como esses dois universos se manifestam em sua produção?

O espaço entre a palavra e a imagem é uma questão constitutiva da natureza da palavra e da imagem. O desenho é a intersecção entre esses campos, pois tanto a palavra quanto a imagem se originaram do desenho, que ainda mantém um parentesco com a escrita e com o pensamento visual.

Além da arte ser para você uma forma de se expressar, você a enxerga também como um meio de aprendizagem, correto? Pode falar um pouco disso?

A arte pode ser considerada, do ponto de vista da educação, como o lugar natural e potente para acordar os sentidos, fundamental para a inteligibilização da sensibilidade e a sensibilização da inteligência. Arte é linguagem, é conhecimento, é aventura perceptiva que agrega saberes.

Qual a importância da pesquisa no processo criativo de um artista?

O processo criativo é fundante e fundamental para a aventura humana. É questão de sobrevivência da espécie. Ativar procedimentos criativos estabelece um vínculo profundo e estrutural com a existência, sob todos os aspectos. Se forçarmos
o território da arte, que existe porque existem artistas, e artistas existem porque existem pessoas, a questão da criação se torna matéria substantiva, que se coloca em movimento…

O workshop chama-se “escrituras do olhar: espaço entre a palavra e a imagem”. Pode discorrer brevemente sobre o tema?

O olhar é o espaço que opera entre a natureza da palavra e a natureza do imagem. O olhar é a linha que intersecta, conecta, costura, refaz, relaciona, associa, desfaz, aproxima ou distancia esses dois campos que são ativados de maneira que se coloca esta questão: “como das palavras nascem imagens e das imagens nascem palavras”.

Qual a proposta do curso? O que você espera dos participantes?

A proposta deste encontro é justamente potencializar o espaço de contágio e rotação que existe entre a natureza da palavra e da imagem. Para isso, iremos motivar procedimentos, proposições, reflexões e projeções através de textos e imagens, para agenciarmos produções poéticas.

O WORKSHOP:

Estes encontros terão como foco a observação de um olhar que opera entre a palavra e a imagem. O ponto de partida será sempre a leitura de alguns fragmentos de livros, tais como: Palomar, de Ítalo Calvino; A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector; O partido das coisas, de Francis Ponge e Livro de Areia, de J.L.Borges; e poemas de João Cabral de Melo Neto. São textos que estimulam algumas motivações e formulações poéticas, anunciando possibilidades de construção do olhar como gerador de múltiplos significados. O workshop pretende proporcionar um trânsito entre distintas técnicas, linguagens, recursos e procedimentos gráficos: desenho, fotografia, poesia visual, colagem, vídeo, livro de artista.

PARA PARTICIPAR:

Os interessados devem enviar até 24 de Outubro uma carta de intenção de no máximo um parágrafo descrevendo o interesse em fazer este curso e um breve histórico sobre sua formação. Para: station@redbull.com.br com o assunto “Inscrição para workshop”. Serão selecionados 20 participantes. O resultado será divulgado dia 28 de Outubro. Workshop gratuito.