Daniel Acosta fala sobre sua trajetória artística

Ao longo de mais de 20 anos de produção, o artista gaúcho Daniel Acosta tem explorado diferentes linguagens como escultura, desenho, fotografia, instalações e arquiteturas portáteis. Mais recentemente, seu trabalho direcionou-se para um contexto híbrido entre arte, arquitetura e design, construindo pequenas arquiteturas e mobiliários para o espaço urbano e instituições públicas.

Em uma conversa com o curador e diretor artístico do Red Bull Station, Fernando Velázquez, Acosta fala de sua trajetória artística e discorre sobre a figura do artista e sua visão da arte contemporânea.

FERNANDO VELÁZQUEZ: Eu acompanho o seu trabalho há  anos, desde a época do Ateliê Aberto em Campinas, com o Reginaldo Pereira [final dos anos 90], e mudou bastante de lá para cá, né? Os objetos não apontavam para o coletivo de uma forma que apontam agora. Me lembro daquele objeto que era uma guarita e parecia parte de um mundo fictício, de um mundo narrativo, asséptico, e seu trabalho foi para um lado mais do “relacional”.

DANIEL ACOSTA: Sim, as Paisagens Portáteis. Quando vim morar em São Paulo pela segunda vez, para fazer doutorado [2001 a 2004], fiz esta série que chamo de Paisagens Portáteis. Era um pouco essa ideia de pensar como nos relacionamos com situações de uma natureza artificial, uma natureza industrial, estandardizada. Gosto muito de usar Formica com padrão madeira – que substitui a relação que você tem com a própria madeira – só que ela é limpa e asséptica. Eu trabalhava com essa Formica, com plantas artificiais, luz fluorescente. Essa série era algo meio sarcástico, irônico, pensando que em São Paulo toda vez que você quer ir à natureza demora, é aquele drama para sair daqui.

Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)
Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)

VELÁZQUEZ: As relações são mais fechadas também, você pensava nisso?

ACOSTA: Sim, a própria arquitetura da cidade – o vidro espelhado que reflete, os locais que não há acesso, os edifícios, esta coisa mais rígida e fechada. Tinha a ver com tudo isso. E a ideia era que ao invés de você ir em direção a paisagem, a paisagem iria até você. Haviam também uns lagos azuis que faziam referência aos lagos de shopping center e às fontes de edifícios. Meu trabalho tem esta característica de se apropriar de vocabulários visuais já existentes e transformá-los em outra coisa. O que mudou radicalmente é que eu tinha, até então, uma visão crítica sobre o espaço urbano e ficava criticando esta situação com esses trabalhos, colocando o dedo na ferida com um sorriso meio sarcástico.

VELÁZQUEZ: E havia talvez uma certa utopia…

ACOSTA: É, uma certa utopia, algo assim. Então pensei, “quem sabe não tento resolver os problemas que estou acusando e não apenas ficar apontando para esses, com uma postura mais cômoda”. Também tem a ver com uma certa acomodação com o contexto da arte – exposição em galeria, que pouca gente tem acesso. Comecei a ir em direção a este trabalho que lida com coisas essencialmente públicas e fui conhecer o trabalho de um monte de gente incrível, como os holandeses do Atelie Van Lieshout. E Fui atrás de uma série de informações que tinham a ver com essa situação e mudou minha cabeça.

Comecei pensar na ideia de espaços de inclusão e exclusão – a cidade tem espaços de inclusão e exclusão, citando o arquiteto Richard Rogers. Passei a pensar meus trabalhos como uma forma de gerar espaços de inclusão, onde as pessoas se encontrassem, sentassem, conversassem.

VELÁZQUEZ: É uma discussão política que você introduz, você ocupa o espaço urbano com seu trabalho e não liga mais se ele for deteriorado. Não é aquela fetichização do objeto, apenas.

ACOSTA: Exatamente. São feitos de madeira normalmente que tem um tempo de duração. Não vão durar pra sempre, mas existe a possibilidade de refazer, o que afasta da ideia de obra de arte que não se pode tocar.

Cassinocosmocave”, 2009, compensado, parafusos, verniz, 180x210x210 cm
Cassinocosmocave, 2009. Compensado, parafusos, verniz, 180x210x210 cm

O mais importante para mim são as pessoas, é como se o material de trabalho fossem as pessoas. As obras são como um dispositivo que gera uma situação e que vai gerar uma certa ação em relação ao lugar.  E faço trabalhos seguindo a demanda do local, como os três mobiliários que criei para o Sesc Bom Retiro. Essa ideia de demanda me agrada, o design e a arquitetura trabalham a partir de demandas.

VELÁZQUEZ:  E você fez um loop, se a gente pensar na sua última exposição da [galeria] Casa Triângulo.

ACOSTA: Exato. As pessoas se acostumaram então com a ideia que meu trabalho é para usar, para sentar. Lá, eu reduzi a escala para inverter esta situação. Não é para sentar, mas as pessoas continuam achando que é. Resolvi confundir, embaralhar a situação.

VELÁZQUEZ: Interessante ver que antes de mais nada o artista é um persistente. A grande maioria do tempo ele faz algo que ninguém vê ou entende.

ACOSTA: Meu trabalho tem a ver com isso, uma resistência a certas coisas. Como sou também professor de faculdade não tenho que viver de arte. Acho que nem conseguiria viver com a ansiedade de ficar vendendo para ganhar dinheiro. A universidade me garante certo lugar e me vejo mais como um pensador, não como um artista/artesão. A questão política é muito importante para mim. E a arte tem a ver com isso, a arte sempre teve a ver com isso. Vejo o artista como um cara que se assume como artista, como se fosse um lugar na sociedade, uma plataforma por onde você emite os seus lances, como diria [Marcel] Duchamp. Seja fazendo vídeo, foto, música, instalação, dança. Qualquer coisa é possível no contexto artístico atualmente. Eu não vendo tanto e isso gera uma coerência no meu trabalho. Tem artista que vende muito, e também se repete. Minha estratégia é diferente, não faço muito mas cada vez que eu faço ponho tudo no trabalho.