Conheça o Café Reparo, projeto que une reflexão política ao conserto de objetos

E se, em vez de criar novos objetos, a gente retrabalhasse o que já existe? Com a ideia do remix e da luta contra a obsolescência programada nasceu o Café Reparo, projeto que se inspira na ideia dos Repair Cafés da Europa e que estará na programação do Festival Red Bull Basement, neste sábado (20), pelo segundo ano.

Foto: Fábio Piva / Red Bull Content Pool
Foto: Fábio Piva / Red Bull Content Pool

Foi lendo um artigo de 2013 da revista “Wired” que o cientista social Pedro Belasco teve a motivação para unir conceitos que, de certa forma, já faziam parte de um outro projeto seu, o Ônibus Hacker, e que estavam no centro de sua própria formação, que cruza política, tecnologia e artes.

“Um articulista discutia a questão dos makerspaces e fazia uma provocação intelectual, ele falava: ‘olha, a gente já tem muita coisa feita, a gente não precisa despender energia pra criar mais badulaque para gerenciar, mesmo que sejam badulaques legais. A gente precisa é formar, capacitar e interiorizar a ideia de que podemos remixar as coisas, retrabalhar o que já tem feito, porque isso é mais inteligente, converge com o conceito de reúso na computação’. E isso bateu em mim. Já tinha Repair Cafe na Europa, o que eu fiz foi convidar uns amigos e falei: ‘vamos tropicalizar a ideia’, conta Belasco.

Junto a um grupo, ele colocou a iniciativa no papel e enviou para a prefeitura de São Paulo, sendo aprovado no edital Redes e Ruas de 2015, realizando durante o ano passado diversas ações parecidas com o que vai ocorrer neste sábado durante o festival — conheça mais nos vídeos ao longo desta matéria, gravados pelo projeto.

Mas como funciona o Café Reparo? Para além de consertar objetos quebrados, nos eventos do coletivo a ideia é despertar a curiosidade sobre como esses produtos são construídos, fomentar a discussão sobre como consumimos as coisas e, também, ser uma ação divertida.

“A gente convida as pessoas a trazerem objetos quebrados, mas é muito delicado pra não configurar a ideia de que você leva uma coisa e ela vai ser consertada de graça. Não é isso. A ideia é que você traga algo pra gente poder iniciar uma dinâmica de convivência e educacional na qual, ao abrir o aparelho, você desperte um sentimento de satisfazer sua curiosidade. Criar um processo de reflexão a respeito dos processos de design e, com isso, poder chegar em temas que eu julgo relevantes, ou coisas que acho interessantes e não são óbvias, que é a gente pensar em cadeia de consumo. Você vai consumir tudo passivamente? Pra que eu tenho que trocar dinheiro por acesso a esses equipamentos? Quanto custa um equipamento que não dura mais que um ciclo? E a pessoa que consertava ele, o que aconteceu com ela?”, coloca Belasco.

Interessado também nas histórias dos reparadores e na transformação desses ofícios, o cientista social acredita que ver os monitores do Café Reparo trabalhando é legal para “entender um pouco essa coisa do cara que conserta a televisão. Aquilo é uma formação técnica, é um tipo de ocupação urbana que já está em extinção”, aponta.

Foi esse interesse inclusive que guiou o projeto que Belasco desenvolveu também no ano passado durante residência no Red Bull Basement, na qual coletou histórias da região da Santa Ifigênia, conhecida pelo comércio de eletrônicos no centro de São Paulo [leia aqui o texto].

“Eu estava com o Café Reparo fervilhando na cabeça e o desafio foi pensar em tecnologia que impacte na cidade. Achei muito apropriado que, ao falar de tecnologia e de cidade, a gente fosse fazer uma investigação mais profunda no bairro da Santa Ifigênia, tentar compreender o que tem de beleza na gambiarra que a gente vê na rua”, explica.

Foto: Yves Tadeu / Projeto "Um passeio pela Meca da Gambiarra paulistana"
Foto: Yves Tadeu / Projeto “Um passeio pela Meca da Gambiarra paulistana”

É reunindo então um pouco disso tudo — o questionamento político, a curiosidade sobre como as coisas funcionam e a observação sobre os ofícios, sem perder a natureza lúdica — que o Café Reparo vai estar em ação entre as 10h30 e as 18h no térreo do prédio do Red Bull Station.

“É fundamental ressaltar que é sim um exercício de pensamento e de reflexão política esse encontro, além de ter esse aspecto recreativo: é muito legal, dá pra ir todo mundo, da criança ao velhinho. O projeto tem também esse caráter festivo, de confraternização. Como você transforma essa vivência de consertar coisas em algo agradável, e como a gente consegue não perder a dimensão política, a dimensão grande das coisas”, resume Belasco.

Foto: Fábio Piva / Red Bull Content Pool
Foto: Fábio Piva / Red Bull Content Pool

Para quem quiser saber mais sobre o Café Reparo, que no momento está em processo de ter um espaço físico de atuação e de se expandir para outros Estados, vale acompanhar a página do projeto: facebook.com/cafe.reparo

(Por Adriana Terra)