Conheça o arRUAça, projeto que realiza workshop em parceria com o Red Bull Basement

Nesta quarta-feira (21), um workshop fechado que integra a programação paralela do programa Red Bull Basement convida os inscritos a parar durante uma tarde para olhar para a cidade, ouvir quem faz parte dela e pensar mudanças que melhorem o espaço urbano.

Trata-se de um experimento do arRUAça, metodologia criada pelo pessoal d’oGangorra, empresa que busca referências que provoquem experiência urbanas e humanas, principalmente ligadas ao estímulo ao uso da bicicleta e a ocupação consciente da rua.

“O arRUAça convida a galera a observar o espaço onde está inserida e sugerir mudanças positivas — e tendo a bike como ferramenta para transformar essa história toda. Convida a galera a se sentir proprietária desse espaço público”, explica Brunno Carvalho, um dos integrantes d’oGangorra.

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Prática do arRUAça em Campo Limpo no primeiro semestre de 2015 / Crédito: facebook.com/oGangorra

A metodologia começou a ser pensada no ano passado, e no primeiro semestre de 2015 foi aplicada em um projeto no bairro paulistano de Campo Limpo, zona sul da cidade. Em parceria com iniciativas de educação e juventude, ela tem a proposta de fazer da rua e de espaços públicos de São Paulo — especialmente na periferia — uma plataforma aberta de convivência, cidadania ao ar livre, experimentação divertida e aprendizado.

O arRUAça foi apresentado em junho na Velo-city, na França, a maior conferência de mobilidade por bicicleta do mundo.

O workshop que será dado no Red Bull Station é uma espécie de versão reduzida do projeto aplicado em Campo Limpo. Contará com exibição de filme e bate-papo, caminhadas observatórias, entrevistas, mapeamento de problemas e desafios em um itinerário pelo centro de São Paulo.

Pedal Fotográfico quer estimular olhar São Paulo de outra forma

Há 32 anos, o fotógrafo e ciclista Ivson Miranda passou um período de 14 meses fotografando São Paulo para um projeto de um banco de imagens e um livro. Nesta publicação, que acabou não saindo, havia um capítulo chamado “Autofagia”, no qual era abordada a característica de São Paulo de estar sempre em transformação — para o bem ou para o mal.

Essa ideia das modificações urbanas se conecta com o evento que ele organiza no próximo dia 17, sábado, saindo do Memorial da América Latina com direção ao Red Bull Station, parando em diversos pontos para registros, o Pedal Fotográfico.

“Esse pedal tem muito a ver com o Red Bull Station — o local estava praticamente abandonado e foi recuperado [saiba mais sobre a história do prédio aqui]. As paradas que estou programando têm a ver com isso”, conta Ivson, explicando que o itinerário deve passar por locais que ele fotografou décadas atrás, destacando as mudanças pelas quais passaram.

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Memorial da América Latina em épocas distintas fotografado por Ivson Miranda
Memorial da América Latina em épocas distintas fotografado por Ivson Miranda

“É meio pra incutir na cabeça das pessoas olhar a cidade com outro olhar, porque com a bicicleta você tem outro tempo. Esse pedal é pra mostrar: você não precisa destruir para construir”, diz Ivson.

O fotógrafo vê também a cidade em um bom momento para esse tipo de evento, no qual o uso do espaço público é estimulado.

E, dentro da proposta de ampliar a visão, a tecnologia entra como um apoio. “Eu vou dar algumas dicas de fotografia para desafiar as pessoas a terem esse olhar. Estou incentivando as pessoas a fotografarem com o celular”, conta ele. Durante o trajeto, os participantes serão convidados a postar as fotos nas redes sociais com a hashtag #pedalRBStation.

O Pedal ocorre neste próximo sábado (17), com saída do Memorial da América Latina às 12h — a concentração será na escultura “Mão” às 11h30 — e chegada ao Red Bull Station às 14h. No local, estará ocorrendo uma feirinha de comida vegana, que vai até às 18h.

Daniel Acosta fala sobre sua trajetória artística

Ao longo de mais de 20 anos de produção, o artista gaúcho Daniel Acosta tem explorado diferentes linguagens como escultura, desenho, fotografia, instalações e arquiteturas portáteis. Mais recentemente, seu trabalho direcionou-se para um contexto híbrido entre arte, arquitetura e design, construindo pequenas arquiteturas e mobiliários para o espaço urbano e instituições públicas.

Em uma conversa com o curador e diretor artístico do Red Bull Station, Fernando Velázquez, Acosta fala de sua trajetória artística e discorre sobre a figura do artista e sua visão da arte contemporânea.

FERNANDO VELÁZQUEZ: Eu acompanho o seu trabalho há  anos, desde a época do Ateliê Aberto em Campinas, com o Reginaldo Pereira [final dos anos 90], e mudou bastante de lá para cá, né? Os objetos não apontavam para o coletivo de uma forma que apontam agora. Me lembro daquele objeto que era uma guarita e parecia parte de um mundo fictício, de um mundo narrativo, asséptico, e seu trabalho foi para um lado mais do “relacional”.

DANIEL ACOSTA: Sim, as Paisagens Portáteis. Quando vim morar em São Paulo pela segunda vez, para fazer doutorado [2001 a 2004], fiz esta série que chamo de Paisagens Portáteis. Era um pouco essa ideia de pensar como nos relacionamos com situações de uma natureza artificial, uma natureza industrial, estandardizada. Gosto muito de usar Formica com padrão madeira – que substitui a relação que você tem com a própria madeira – só que ela é limpa e asséptica. Eu trabalhava com essa Formica, com plantas artificiais, luz fluorescente. Essa série era algo meio sarcástico, irônico, pensando que em São Paulo toda vez que você quer ir à natureza demora, é aquele drama para sair daqui.

Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)
Paisagem Portátil 3, 2003 . MDF, compensado, fórmica, parafusos e plantas permanentes . 220 x 190 x 90 cm (crédito: Casa Triângulo)

VELÁZQUEZ: As relações são mais fechadas também, você pensava nisso?

ACOSTA: Sim, a própria arquitetura da cidade – o vidro espelhado que reflete, os locais que não há acesso, os edifícios, esta coisa mais rígida e fechada. Tinha a ver com tudo isso. E a ideia era que ao invés de você ir em direção a paisagem, a paisagem iria até você. Haviam também uns lagos azuis que faziam referência aos lagos de shopping center e às fontes de edifícios. Meu trabalho tem esta característica de se apropriar de vocabulários visuais já existentes e transformá-los em outra coisa. O que mudou radicalmente é que eu tinha, até então, uma visão crítica sobre o espaço urbano e ficava criticando esta situação com esses trabalhos, colocando o dedo na ferida com um sorriso meio sarcástico.

VELÁZQUEZ: E havia talvez uma certa utopia…

ACOSTA: É, uma certa utopia, algo assim. Então pensei, “quem sabe não tento resolver os problemas que estou acusando e não apenas ficar apontando para esses, com uma postura mais cômoda”. Também tem a ver com uma certa acomodação com o contexto da arte – exposição em galeria, que pouca gente tem acesso. Comecei a ir em direção a este trabalho que lida com coisas essencialmente públicas e fui conhecer o trabalho de um monte de gente incrível, como os holandeses do Atelie Van Lieshout. E Fui atrás de uma série de informações que tinham a ver com essa situação e mudou minha cabeça.

Comecei pensar na ideia de espaços de inclusão e exclusão – a cidade tem espaços de inclusão e exclusão, citando o arquiteto Richard Rogers. Passei a pensar meus trabalhos como uma forma de gerar espaços de inclusão, onde as pessoas se encontrassem, sentassem, conversassem.

VELÁZQUEZ: É uma discussão política que você introduz, você ocupa o espaço urbano com seu trabalho e não liga mais se ele for deteriorado. Não é aquela fetichização do objeto, apenas.

ACOSTA: Exatamente. São feitos de madeira normalmente que tem um tempo de duração. Não vão durar pra sempre, mas existe a possibilidade de refazer, o que afasta da ideia de obra de arte que não se pode tocar.

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Cassinocosmocave, 2009. Compensado, parafusos, verniz, 180x210x210 cm

O mais importante para mim são as pessoas, é como se o material de trabalho fossem as pessoas. As obras são como um dispositivo que gera uma situação e que vai gerar uma certa ação em relação ao lugar.  E faço trabalhos seguindo a demanda do local, como os três mobiliários que criei para o Sesc Bom Retiro. Essa ideia de demanda me agrada, o design e a arquitetura trabalham a partir de demandas.

VELÁZQUEZ:  E você fez um loop, se a gente pensar na sua última exposição da [galeria] Casa Triângulo.

ACOSTA: Exato. As pessoas se acostumaram então com a ideia que meu trabalho é para usar, para sentar. Lá, eu reduzi a escala para inverter esta situação. Não é para sentar, mas as pessoas continuam achando que é. Resolvi confundir, embaralhar a situação.

VELÁZQUEZ: Interessante ver que antes de mais nada o artista é um persistente. A grande maioria do tempo ele faz algo que ninguém vê ou entende.

ACOSTA: Meu trabalho tem a ver com isso, uma resistência a certas coisas. Como sou também professor de faculdade não tenho que viver de arte. Acho que nem conseguiria viver com a ansiedade de ficar vendendo para ganhar dinheiro. A universidade me garante certo lugar e me vejo mais como um pensador, não como um artista/artesão. A questão política é muito importante para mim. E a arte tem a ver com isso, a arte sempre teve a ver com isso. Vejo o artista como um cara que se assume como artista, como se fosse um lugar na sociedade, uma plataforma por onde você emite os seus lances, como diria [Marcel] Duchamp. Seja fazendo vídeo, foto, música, instalação, dança. Qualquer coisa é possível no contexto artístico atualmente. Eu não vendo tanto e isso gera uma coerência no meu trabalho. Tem artista que vende muito, e também se repete. Minha estratégia é diferente, não faço muito mas cada vez que eu faço ponho tudo no trabalho.

Energia elétrica transformada em energia criativa

O Red Bull Station não tem esse nome por acaso. Antigamente o local abrigava a subestação Riachuelo que fornecia energia para os bondes elétricos da cidade. O edifício dos anos 20, tombado como patrimônio histórico pelo Conpresp, foi desativado em 2004 e passou anos fechado e esquecido. Em Novembro de 2013, após uma longa reforma, suas portas reabriram. Nascia uma nova estação, que abastece a metrópole com energia criativa.

O escritório de arquitetura Triptyque foi encarregado em devolver o prédio à cidade. O projeto de requalificação teve dois pontos importantes: respeitar a essência arquitetônica do lugar e transformá-lo em um espaço que reaproximasse o visitante ao centro de São Paulo. “Nossa grande vontade era uma reconquista da região. Criamos uma cobertura para o visitante entender e contemplar a cidade; se apropriar daquele entorno e deixar que o entorno se aproprie dele.” comenta Carolina Bueno, da Triptyque.

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Com a reforma, o antigo imóvel de três andares ganhou mais dois: um subsolo e uma laje. Sobre o topo, adicionaram uma estrutura, chamada folha. “Queríamos que um elemento contemporâneo viesse a existir também com o corpo histórico, no sentindo de anunciar a transformação”, explica a arquiteta. Outra intervenção em evidência é a escada externa, que acompanha as pessoas pelos cinco níveis do Red Bull Station.

A folha possui uma dupla função: de marquise, para sombreamento e proteção, e de funil, para captação da chuva. Segundo Carolina, a água era um elemento que já estava muito presente na construção original. A estação contava com um sistema único e moderno de coleta da chuva, que passava pelas tubulações e resfriava os transformadores de energia e refrigerava o ar. Esse sistema – que incluía o chafariz – foi recolocado, resgatando uma característica particular do prédio de reutilização da água pluvial.

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Apesar do tombamento ser apenas volumétrico, ou seja, contemplar somente o seu entorno, procurou-se respeitar ao máximo a parte interna e apenas reorganizá-la espacialmente a fim de adaptar o edifício às novas funções. Os elementos arquitetônicos interessantes como as vigas, a tubulação, as portas de ferro dos ateliês e paredes com pinturas originais foram mantidos.

O empenho em preservar a essência do prédio e simultaneamente transformá-lo em um espaço contínuo de produção e difusão cultural rendeu ao projeto no ano passado o Prêmio Murilo Marx, modalidade Práticas, outorgado pelo DPH (Departamento de Patrimônio Histórico) da Prefeitura de São Paulo.

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FICHA TÉCNICA:

Arquitetura: Triptyque
Sócios: Greg Bousquet,  Carolina Bueno, Olivier Rafaëlli e Guillaume Sibaud
Coordenador geral: Luiz Trindade
Chefe de projeto: Paulo Adolfo Martins
Equipe: Pedro de Mattos Ferraz (arquiteto). Colaboradores: Thiago Bicas, Ricardo Innecco (arquitetos); Luísa Vicentini, Sofia Saleme, Priscila Fialho, Murillo Fantinati, Alfredo Luvison, Natallia Shiroma, Nely Silveira (estagiários).
Patrimônio e restauro: Arquiteta Ana Marta Ditolvo
Restauração de Patrimônio Histórico: Pires | Giovanetti | Guardia
Estrutura: Companhia de Projetos
Reforço Estrutural: Consultest
Fundações: Solosfera Consultoria em Geotecnia e Fundações
Luminotécnico: Estúdio Carlos Fortes
Projeto e Direção Geral do Estúdio de Gravação: Imar Sanmarti | Acousthink
Design de Interiores: Wado Gonçalves | Bruno G. Oshiro
Paisagismo: Hanazaki
Coordenação de Restaurante | Catering: Lelo Ramos | Gustavo Torres
Projeto Executivo de Acústica: Akkerman Projetos Acústicos
Luminotécnica: Estúdio Carlos Fortes
Gerenciamento: Jairo Gen
Prevenção e combate incêndio: Feuertec Engenharia
Elétrica e Hidráulica: Sermon Engenharia
Climatização: Systema
Áudio e Video: SVA Sistemas de Audio e Video
Climatização Studio: Fundament-AR Engenharia
Impermeabilização: Proassp
Construtor Civil e Gerenciament: Lock Engenharia
Iluminação: Lumini, Oswaldo Matos
Estruturas Metálicas: Engemetal
Bancadas concreto: Tresuno
Esquadrias Termo Acústicas: Yziplas | Rehau
Steel Layer: Ananda Metais
Realização: Red Bull do Brasil
Apoio Institucional: Secretaria Municipal de Cultura de SP

Projeto: 2011-2013
Entrega: out/2013

Red Bull Station

 

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