Pulso

Os sotaques do #PULSØ2016: uma conversa entre Belém e Goiânia

28abr

por Red Bull Station

As trocas entre os 30 músicos reunidos para o #PULSØ2016 são uma das coisas mais interessantes da ocupação musical.

Entre as parcerias que rolaram durante o projeto, um grupo se formou com percussionistas do time do paraense Félix Robatto — artistas com experiência no carimbó e no tecnobrega — e do goiano Macloys Aquino (Carne Doce), mais ligados ao rock alternativo. No sábado (30), no último show da ocupação, eles vão mostrar um pouquinho do som que fizeram juntos.

Veja abaixo o ensaio.

 

Para saber mais sobre essa junção, a princípio pouco óbvia, a gente reuniu o Macloys e o Félix para um papo. Após a conversa, um questionou o outro sobre trajetória musical, a cena da cidade onde vivem, entre outras coisas que ajudam a entender a conexão de seus grupos. Confira:

Como rolou essa troca entre os grupos?

Félix Robatto – A interação começou com eles buscando Adriano e Douglas pra gravar. Eles quem tomaram a iniciativa, e eu achei bacana. E eu já tinha visto o Carne Doce em Brasília, nosso primeiro contato foi num festival.

Macloys Aquino – Nosso time não é só de goianos. E o Lê Almeida, que é carioca, tem uma característica de produção que ele grava tudo analógico. Então a gente pensou numa forma de absorvê-lo no grupo. E um dia teve um batuque muito forte na sala dos paraenses. Quando eu entrei, o Douglas falou “eu quero abrir os trabalhos”, e foi isso que ele fez. Ele começou com os tambores, a Gutcha [do grupo do RS] chegou com uma rabeca, eu e o Lê entramos e fizemos uma roda que durou uns 40 minutos. E ali começou uma conversa. Eu já tinha conhecido os meninos no festival em Brasília, conheci o Adriano e sabia que ele era um baterista incrível. Aí conheci o Douglas na abertura dos trabalhos. E, sabendo do Lê, foi só juntar.

Félix Robatto no primeiro showcase do Pulsø | Crédito: Felipe Gabriel
Félix Robatto no primeiro showcase do Pulsø | Crédito: Felipe Gabriel

O que vocês aprenderam nesse processo?

Macloys Aquino – A nossa fusão não absorveu a guitarra paraense, absorveu o rítmico. Mas eu admiro muito a guitarra de lá e escuto porque o primeiro disco de rock que ouvi na vida foi “Brothers in Arms”, do Dire Straits [Félix informa nessa hora que esse disco tocou muito lá], e ele tem umas guitarras limpas. Então eu sempre me interessei pelos timbres de guitarra limpos, e esses caras fazem isso com maestria, a guitarra sem modulação, e eu gosto. As guitarras que eu faço no Carne Doce são majoritariamente guitarras clean.

Félix Robatto – Tem umas coincidências que o que muda é o sotaque de tocar. O sotaque da música que eles fazem é diferente do nosso, a nossa guitarra é mais rítmica que a deles, eles já têm uma coisa bem melódica.

Macloys Aquino ensaiando durante o Pulsø | Crédito: Felipe Gabriel
Macloys Aquino ensaiando durante o Pulsø | Crédito: Felipe Gabriel

Macloys entrevista Félix

Como você vive de música?
Eu sempre vivi de música, desde os 13 anos eu toco e eu nunca travalhei com outra coisa. Eu cursei licenciatura em música na Universidade Estadual do Pará e nessa época me empolguei em dar aula, mas quando eu vi que isso estava me atrapalhando eu parei. Aí o que eu faço: toco e produzo. E é uma bola de neve no caso da produção, quanto mais você vai fazendo mais vai aparecendo [Félix produziu o disco “Treme”, de Gaby Amarantos, com quem tocou por anos, e tem diversos projetos com artistas no Pará]. Aí também montei uma festa, a Quintarrada, e é a festa que é o certo que paga minhas contas.

Tocar fora do Pará é muito diferente?
Em Belém é mais responsa, porque aqui as pessoas já estão mais acostumadas a ir pra um show que não conhecem e ver se gosta, porque ouviram falar que era bacana e foram lá. E em Belém as pessoas vão porque já conhecem.

Félix entrevista Macloys

Você falou que no seu grupo a maioria tem uma outra profissão [além de músico]. Como é lidar com isso quando pintam projetos como esse?
Eu comecei a encaminhar minha vida pra ficar mais livre na música, eu sou jornalista de profissão, mas tenho me organizado. Saí do jornal que eu trabalhava porque o envolvimento era muito pesado. Eu sempre mexi com banda, mas de uma forma muito amadora e recreativa, mas quando eu conheci a Salma e a gente lançou a banda surgiram propostas irrecusáveis, então a gente está fazendo e aprendendo. Você é um profissional da música, eu não sou mas gostaria muito de ser, e o que eu puder fazer na música hoje me é mais interessante que ser jornalista.

Qual o público que vocês querem atingir com a música de vocês [no Carne Doce], vocês pensam nisso?
Acho que o caminho que a gente faz é o inverso, a gente não tem público-alvo. A gente tem duas frentes no Carne Doce: a letra que provoca e a sonoridade que faz as pessoas se envolverem. Nosso show tem sido cada vez mais pesado, no sentido rock mesmo. A Salma, letrista, se sente provocada por muitas questões da vida cotidiana, e as pessoas se identificam com as perguntas feitas nas letras, a gente faz poucas afirmações.